terça-feira, 24 de dezembro de 2013
ORIGEM DO LEMA: LIBERDADE, IGUALDADE E FRATERNIDADE...
As três palavras .•. Liberdade, Igualdade e Fraternidade .•. que se tornaram, praticamente, um lema da Maçonaria contemporânea, não têm origem maçônica. Alguns autores, mais ufanos do que realistas e mais fantasistas do que científicos, afirmam que o lema é maçônico e foi utilizado como divisa da Revolução Francesa de 1889.
A verdade histórica, todavia, é bem outra:
Em primeiro lugar, o lema da Revolução Francesa era "Liberté, Égalité, ou la Mort" (Liberdade, Igualdade, ou a Morte). Só com a 2a. República, em 1848, é que ele iria se transformar em "Liberté, Égalité, Fraternité" (Liberdade, Igualdade, Fraternidade). (Ver nota)
Em segundo lugar, foi a Maçonaria francesa que, na segunda metade do século XIX,adotou o lema da 2a. República, o qual acabaria se vulgarizando entre os maçons que trabalhavam sob influência da cultura francesa, em todo o mundo, a ponto de chegar a ser considerado como uma divisa exclusivamente maçônica, o que não é.
Em terceiro lugar, a idéia de Liberdade, Igualdade e Fraternidade é bem mais antiga.
Podem ser encontrados vestígios dela, quando da criação da primeira seita comunista, dita "Comunismo Cristão", fundada em 1694, por Johann Kelperès. Para os membros dessa seita, o Messias aguardado não se apresenta como o pescador de almas, mas, sim, através de uma trilogia , onde ele é o "distribuidor de justiça"(igualdade), o "grande irmão" (fraternidade) e o "libertador"(liberdade).
Análise e significado
A análise da divisa, ou da trilogia, pode ser feita através do prisma político-social, ou sob o ponto de vista exclusivamente iniciático. No primeiro caso, teríamos:
Do ponto de vista político-social:
A igualdade constitui um ideal da organização social, pela qual lutou a humanidade, à medida que ia avançando no caminho de sua evolução. Essa luta dura até hoje, porque a divisão das nações, em sistemas políticos, das comunidades, em classes sociais, e dos indivíduos, em posições econômicas, morais e intelectuais, prejudicam os esforços em benefício da igualdade irrestrita.
A fraternidade é considerada como a conduta que norteia a vida de um indivíduo. Ela é desejada, reclamada e fixada como objetivo de todas as religiões, instituições sociais, partidos políticos, etc. , estabelecendo o altruísmo contra o egoísmo, a benevolência contra a malevolência, a tolerância contra a intolerância, o amor contra o ódio.
A liberdade nasce com o indivíduo, atinge o consciente coletivo dos povos e produz fatos extraordinários. O sentimento de liberdade é o bem mais caro ao coração de um homem; e não há nada que o deprima tanto quanto a opressão da escravidão, o encarceramento da consciência e a privação da liberdade.
Do ponto de vista iniciático, todavia, o conceito é um pouco diferente:
A igualdade repousa sobre a consciência da identidade básica de todos os seres e de todas as manifestações do espírito humano, acima de todas as distinções externas de posição social e de grau de conhecimento e de desenvolvimento intelectual. Essa igualdade , representada pelo Nível, é que proporciona, a todos, uma justa e reta maneira de conduta com todos os semelhantes.
A fraternidade é considerada o complemento da liberdade individual e da igualdade espiritual, das quais representa a adoção prática. Em síntese, é a tolerância, em relação à
liberdade, e a compreensão, em relação à igualdade.
A liberdade é definida como uma aquisição individual, íntima, fundamentalmente independente da liberdade externa, que pode ser outorgada pelas leis e pelas circunstâncias da vida. Em resumo, é a liberdade que se adquire buscando a Verdade e realizando esforços para trilhar o caminho da virtude, dominando os vícios, os hábitos negativos e as paixões destrutivas.
A interpretação astrológica
A Igualdade é o símbolo de Libra, ou Balança. Este signo é o símbolo universal do equilíbrio, da legalidade e da justiça, concretizados pelo senso da diplomacia e da cortesia, que o caracterizam, assim como a aversão à agressividade e à violência de Áries, que está diante dele.
Libra significa, em última análise, um caráter afável, um sentido de justiça, harmonia e sociabilidade , que são, todos, atributos da igualdade.
A Fraternidade é perfeitamente ilustrada pelo signo de Gêmeos, em sua dualidade , representado por dois gêmeos, que são os míticos Castor e Pólux, cada um desempenhando seu papel, sem nenhuma proeminência sobre o outro. O signo de Gêmeos é dual, porque simboliza o momento em que a força criativa de Áries e Touro divide-se em duas correntes: uma tem sentido ascensional , espiritual, e a outra é descendente, no sentido da multiplicidade das formas e do mundo fenomênico. Considere-se, também, que, face a Gêmeos, está Sagitário, governado por Júpiter, Zeus, Deus, do qual todos os homens emanam, o que os faz irmãos uns dos outros, com
cada um procurando-o, à sua maneira.
A Liberdade é apanágio de Aquário, simbolizado por Ganimedes, pelo anjo derramando, sobre a humanidade, o cântaro do saber ; saber, que, se for bem utilizado, pode ser um meio de acesso à liberdade, com a condição de que aceite a superioridade do iniciado. Só o iniciado , o sábio , poderá reconhecer os limites além dos quais não poderá ir, pois esta é a maneira dele chegar ao conhecimento dos mistérios divinos. Essa ligação com o divino, da qual Moisés é um símbolo, o respeito às leis divinas, fundamental para uma existência pacífica e harmoniosa, serão, também, assinalados pelo signo frontal a Aquário: Leão, cujo símbolo é o Sol; o Sol, símbolo
do UM, símbolo de Deus.
Esses três signos, Libra, Gêmeos e Aquário, são os signos do ar do zodíaco. E os signos do ar são símbolos do espírito, são símbolos do cosmos, que o iniciado deve procurar conhecer e compreender.
NOTA - Alec Mellor, respeitadíssimo pesquisador francês, afirma que é inteiramente falso que essa divisa republicana seja de origem maçônica. Louis Blanc e outros autores pretendem que seu inventor tenha sido Louis-Claude de Saint-Martin, mas o historiador mais abalizado da vida e do pensamento deste, Robert Amadou, demonstrou que isso não é verdadeiro.
A pesquisadora B.F. Hyslop examinou uma grande quantidade de diplomas maçônicos publicados entre 1771 e 1799, na Biblioteca Nacional de Paris, e não encontrou mais que dois, somente, onde as três palavras estão reunidas. Quase todos registram "Saúde - Força - União", ou falam do templo onde reina "o Silêncio, a União e a Paz". O resultado desse estudo está publicado in "Annales Historiques de la Révolution Française" - janeiro, 1951, pag. 7.
A 1a. República conheceu bem a divisa "Liberdade, Igualdade, ou a Morte", mas tal programa ideológico não foi jamais o da Maçonaria. Foi somente sob a 2a. República que a "tríplice divisa" surgiu. Mas não foi a República que tomou emprestada a divisa à Maçonaria,
mas, sim, a Maçonaria é que a tomou emprestada à República (in Dictionnaire de la Franc-Maçonnerie et des Francs-Maçons" - Belfond - Paris - 1971) .
Extraído do livro "Maçonaria e Astrologia"
Editora Madras – S. Paulo – 1998
sexta-feira, 6 de dezembro de 2013
A IMPORTÂNCIA DA CONSTITUIÇÃO DE ANDERSON...
A Constituição de Anderson de 1723 é, provavelmente, o documento que mais bem espelha os princípios da Maçonaria. Foi elaborada na transição entre a Maçonaria Operativa e a Especulativa, quando a organização outrora agrupando artesãos construtores se transformava na sua forma atual de organização fraternal indutora de aperfeiçoamento pessoal, moral e espiritual dos seus membros, segundo um método próprio, fundado em princípios herdados de tempos imemoriais, transmitidos e preservados de geração em geração.
Muito - quase tudo - daquilo que os maçons referem como proveniente de "antigas tradições" está inscrito nesta Constituição, autêntico documento basilar da Maçonaria.
Foi publicada em 1723 no Grão-Mestrado de Philip Wharton, 1.º Duque de Wharton, o sexto Grão-Mestre da Premier Grand Lodge de Inglaterra, na realidade o quinto maçom a exercer tais funções, já que George Payne repetira o exercício do ofício, que assegurou em 1718 e de novo em 1720, e o segundo nobre a assumir a condução dos destinos da maçonaria inglesa. O primeiro fora John Montagu, 2.º Duque de Montagu, Grão-Mestre entre 1721 e 1723, que foi quem, em 1721, encarregou James Anderson de "examinar, corrigir e organizar, segundo um melhor método, a História, Obrigações e Regras da Antiga Fraternidade".
James Anderson (1679 ou 1680 - 1739), pastor da Igreja da Escócia, era ministro da Igreja presbiteriana de Swallow Street, em Londres, desde 1710 e Venerável Mestre da Loja com o n.º 17 aquando da publicação da Constituição, conforme se pode ler no apêndice final desta (aliás o local onde consta a única referência à sua autoria do texto).
O post-scriptum final foi assinado pelo Grão-Mestre Philip, Duque de Wharton, o Vice-Grão-Mestre John Teophilus Desaguliers (que exercera já o ofício de Grão-Mestre em 1719), pelos Grandes Vigilantes Joshua Timson (ferreiro de profissão) e William Hawkins (maçom operativo, ou seja, artesão construtor) e pelos Veneráveis Mestres e Vigilantes das então existentes 2o Lojas (incluindo o primeiro Grão-Mestre, em 1717, Anthony Sayer, em 1723 Vigilante da Loja com o n.º 3, e George Payne, que foi Grão-Mestre em 1718 e 1720 e em 1723 era o Venerável Mestre da Loja com o n.º 4) e nele pode ler-se que Anderson, para realizar a tarefa de que fora incumbido, "analisou várias cópias manuscritas de Itália, Escócia e outras partes de Inglaterra e daí (embora aqueles estivessem errados em muitas coisas) e de vários outros arquivos antigos dos maçons extraiu e elaborou a presente Constituição, Obrigações e Regras Gerais".
O volume começa por uma dedicatória ao Ex-Grão-Mestre, John, Duque de Montagu, elaborada pelo Vice-Grão-Mestre em exercício, John Teophilus Desaguliers, prossegue com um capítulo dedicado à História da Maçonaria, a que se seguem os capítulos dedicados às Obrigações dos Maçons e às Regras Gerais, um post-scriptum e a Aprovação, concluindo-se com letras e algumas pautas musicais de canções maçónicas (Canção do Mestre ou a História da Maçonaria, Canção dos Vigilantes ou Outra História da Maçonaria, ambas da autoria de Anderson, Canção dos Companheiros, da autoria de Charles Delafaye e Canção dos Aprendizes, da autoria de Matthew Birkhead).
A parte dedicada à história da Maçonaria é uma compilação efetuada, fixada e, não pouco significativamente, corrigida por Anderson das versões, há muito existentes em documentos da maçonaria operativa e de que neste blogue já dei conta e divulguei e comentei, da Lenda do Ofício (ver os textos agrupados no marcador Lenda do Ofício). A parte final, das canções, hoje pouco mais interesse tem do que o de curiosidade. A dedicatória, o post-scriptum e a Aprovação são textos quase que apenas protocolares.
Particular interesse revestem os capítulos dedicados às Obrigações dos Maçons e às Regras Gerais. Lendo-os e analisando-os, neles detetamos a origem de variadas compilações e versões de chamados Landmarks (princípios fundamentais da Maçonaria) e de regras ainda hoje usadas e praticadas em Maçonaria, muitas delas não constando de qualquer regulamento e invocadas como derivando de "Antigas Tradições". Pois bem, a fonte ou, pelo menos, a compilação dessas Antigas Tradições está na Constituição de Anderson de 1723!
Se nada surgir em contrário, vou dedicar quase todos os meus textos deste ano de 2012 à divulgação, análise e comentário crítico dos textos das Obrigações dos Maçons e das Regras Gerais da Constituição de Anderson de 1723. Serão muitos textos (as Obrigações são seis, a última das quais dividida em seis partes, o que, em princípio, justificará onze textos; as Regras Gerais são 39, o que justificará outros tantos textos). Resumindo: um programa para 50 textos, que ocupará todo este ano de 2012 e poderá ainda sobrar para 2013, dependendo da altura em que eu decidir publicar dois textos dedicados à memória da Loja, relativos ao período do veneralato do vigésimo primeiro Venerável Mestre da Loja e da eventualidade de, a qualquer tempo, poder interromper o que será esta longa série para escrever sobre qualquer assunto que julgue oportuno.
O tema desta série merece esta alongada atenção. Afinal, a Constituição de Anderson de 1723 é um documento essencial para se compreender o que é a Maçonaria. Essencial para quem é maçom, se quer mesmo saber porque faz algo do que faz; essencial para quem não é maçom, se não se quiser limitar a umas "ideias gerais", geralmente pouco acertadas, sobre a instituição da Maçonaria de que tantos falam e tão poucos acertam.
Nesta série de textos, utilizarei como fonte permanente a excelente versão portuguesa da Constituição de Anderson de 1723, publicada em 2011 pelas Edições Cosmos, com introdução, comentário e notas de Cipriano de Oliveira (não concordo com todas as posições expressas por Cipriano de Oliveira - e ele sem dúvida que sabe onde discordamos... -, o que não invalida que seja um notável trabalho o que ele realizou e muito útil a edição resultante da sua pesquisa e do seu labor).
terça-feira, 26 de novembro de 2013
A PREVALÊNCIA DO ESPÍRITO SOBRE A MATÉRIA...
INTRODUÇÃO
.
O capítulo I da Constituição do Gr .: Or .: do Brasil, que trata dos princípios gerais da Maçonaria e dos postulados universais da instituição, em seu artigo 1.o define Maçonaria como uma Instituição essencialmente iniciática, filosófica, filantrópica e evolucionista, que proclama a prevalência do espírito sobre a matéria e pugna pelo aperfeiçoamento moral, intelectual e social da humanidade por meio do cumprimento inflexível do dever e da investigação constante da verdade.
Como poderia a maçonaria ser iniciática se não proclamasse a prevalência do espírito sobre a matéria? Se assim não fosse, que valor teria toda a sabedoria maçônica?
A palavra iniciação, derivada da latina Initiare (de início, começo), deriva-se de duas outras : in (=para dentro) e ire (=ir), ou seja, ir para dentro, penetrar no interior e começar de novo.
Da etimologia da palavra depreende-se que o significado da Iniciação é o ingresso no mundo interno para começar a vida nova. A iniciação maçônica apresenta um simbolismo maravilhoso. Na câmara das reflexões o homem fecha os sentidos do mundo externo, encontra-se isolado nas trevas que representam a matéria física e passa a dirigir a luz do seu pensamento para seu mundo interior, o mundo do espírito que o conduz ao conhecimento próprio e ao do universo.
A iniciação é, portanto, uma renovação completa do caráter, um acordar das faculdades latentes da alma e, somente após aprender a extinguir o fogo das paixões, comprimir os desejos impuros, orientar os impulsos do seu ser para o bem e a virtude, é que se introduzem nos grandes mistérios.
Espírito e matéria
Não há efeito sem causa; o nada não poderia produzir coisa alguma. Estão aí axiomas, isto é, verdades incontestáveis. Ora, como se verifica em cada um de nós a existência de forças, de potências que não podem ser consideradas como materiais, há necessidade, para explicar a sua causa, de remontar a outra origem além da matéria, a esse princípio que designamos alma ou Espírito.
Quando, perscrutando-nos a nós mesmos, queremos aprender a nos conhecermos, a analisar as nossas faculdades; quando afastando da nossa alma a escuna nela acumulada pela vida, o espesso invólucro de que os preconceitos, os erros, os sofismas revestiram a nossa inteligência – penetramos nos recessos mais íntimos do nosso ser e nos achamos então em face desses princípios augustos, sem os quais não há grandeza para a Humanidade : o amor do bem, o sentimento da justiça e do progresso. Esses princípios, que se encontram nos graus diversos, no ignorante do mesmo modo que no homem de gênio, não podem proceder da matéria, que esta desprovida de tais atributos. E se, a matéria, que não possui essas qualidades, como poderia por si só formar os seres que estão com elas dotados? O sentimento do belo e do verdadeiro, a admiração que experimentamos pelas obras grandes e generosas, teria assim a mesma origem que a carne do nosso corpo e o sangue de nossas veias. Entretanto, devemos antes considerá-los como reflexos de uma alta e pura luz que brilha em cada um de nós, do mesmo modo que o Sol se reflete sobre as águas, estejam estas turvas ou límpidas. Em vão se pretenderia que tudo fosse matéria. Pois que! Somos susceptíveis de amor e bondade; amamos a virtude, a dedicação, o heroísmo; o sentimento da beleza moral está gravado em nós; a harmonia das leis e das coisas nos penetra, nos inebria; e nada de tudo isso nos distinguiria da matéria? Sentimos, amamos, possuímos a consciência, à vontade e a razão, e procederíamos duma causa que não sente, não ama, nem conhece coisa alguma, que é cega e muda! Superiores a força que nos produz, seriamos mais perfeitos e melhores do que ela.
Tal modo de ver não suporta um exame. O homem participa de duas naturezas. Pelo seu corpo, pelos seus órgãos deriva-se da matéria; pelas suas faculdades intelectuais e morais; procede do Espírito.
Relativamente ao corpo humano, digamos ainda com mais exatidão que os órgãos componentes dessa máquina admirável são semelhantes a rodas incapazes de andar sem um motor, sem uma vontade que os ponha em ação. Esse motor é a alma. Um terceiro elemento liga a ambos, transmitindo ao organismo as ordens do pensamento. Esse elemento é o perispírito, matéria etérea que escapa aos nossos sentidos. Ele envolve a alma, acompanha-a depois da morte nas suas peregrinações infinitas, depurando-se, progredindo com ela, constituindo para ela um corpo diáfano, vaporoso.
O Espírito reside na matéria, como um prisioneiro em sua cela; os sentidos são as fendas pelas quais se comunica com o mundo exterior. Mas, enquanto a matéria declina cedo ou tarde, se enfraquece e se desagrega, o Espírito aumenta em poder e se fortifica pela educação e pela experiência. Suas aspirações engrandecem, estende-se por além-túmulo; sua necessidade de saber, de conhecer, de viver é sem limites. Tudo isso mostra que o ser humano só temporariamente pertence à matéria. O corpo não passa de um vestuário de empréstimo, de uma forma passageira, de um instrumento por meio do qual a alma prossegue neste mundo a sua obra de depuração e progresso. A vida espiritual é a vida normal, verdadeira, sem-fim.
desenvolvimento
A virtude, o conhecimento, a sabedoria e a bondade são atributos do espírito. Portanto, é o Espírito que se melhora e busca progressivamente a perfeição pelo conhecimento da verdade. No início há uma predominância da matéria sobre o espírito. Ignorância, orgulho, egoísmo e todas as paixões que lhe são conseqüentes. Com o desenvolvimento e conhecimento, suas qualidades morais, sabedoria e bondade, passam a predominar. É a predominância do espírito sobre a matéria. É o desejo do bem na busca da perfeição pelo conhecimento da verdade.
A – As Grandes Doutrinas :
Todas as grandes doutrinas nos dão indicações e caminhos para se atingir a verdade, o grande mistério. A Maçonaria Universal sofreu influência de todas elas e carregam no significado dos seus símbolos marcas dessa influência.
Essas grandes doutrinas tiveram duas faces : uma aparente e outra oculta. Uma forma material, que eram as cerimônias, os cultos e os símbolos, para instigar a imaginação do povo. A outra, espiritual, onde estão os conhecimentos científico e filosófico, a verdade da vida somente interpretada pelos iniciados em doses proporcionais ao desenvolvimento das suas qualidades morais e intelectuais.
Com o domínio do conhecimento e interpretação dos seus símbolos entenderemos que a vida nada mais é que a evolução no tempo e no espaço, do espírito, única realidade permanente. A matéria é sua expressão inferior, sua forma variável. O Ser por excelência, o G .: A .: D .: U .: e fonte de todos os seres é Deus, simultaneamente triplo e uno. É a essência, substância e vida em que se resume todo o universo.
Eis porque podemos encontrar o G .: A .: D .: U .: no mais profundo do nosso ser, interrogando a nós mesmos na solidão, estudando e desenvolvendo as nossas faculdades : a razão e a consciência.
B – Interpretação das Grandes Doutrinas
A doutrina secreta acha-se no fundo de todas as religiões e dos livros sagrados de todos os povos.
Existe uma vasta literatura, onde podemos comprovar e esmiuçar sobre um tema tão sério e porque não dizer polêmico, devido às várias interpretações e formas de adoração, mas tendo em comum a crença de uma vida eterna, após o cumprimento desta passagem por esta.
Os primeiros livros em que se encontra exposta a grande doutrina são os Vedas. É o molde em que se formou a religião primitiva da Índia, onde eles celebravam agni, o fogo, símbolo eterno masculino ou espírito criador e soma, símbolo do eterno feminino, alma do mundo, substância etérea, que em sua perfeita união constituem o ser supremo que se imola a si mesmo para produzir a vida universal. Acreditando na imortalidade da alma e a reencarnação.
Na vasta solidão dos bosques viviam, em retiro, os rishis. Intérpretes da ciência oculta da doutrina secreta dos vedas, eles já possuíam os misteriosos poderes transmitidos através dos séculos de que gozam ainda os faquíres e os iogues. Desses solitários saiu o pensamento inovador, o primeiro impulso que fez do bramanismo a mais colossal das teocracias.
O inspirador das crenças dos Hindus, Krishna, aparece na história como o primeiro reformador, sendo que renovou a doutrina védica apoiando-se sobre as idéias da trindade, da imortalidade da alma e de seus renascimentos sucessivos. E através desta teoria, conquistou muitos seguidores e desenvolveu muitos conceitos e ideologias, entre tantos ensinamentos de sua teoria dizia aos seus seguidores escolhidos : “Revelei-vos os grandes segredos. Não os digais senão àqueles que os podem compreender, sois os meus eleitos : vedes o alvo. A multidão só descortina uma ponta do caminho”.
Por estas palavras a doutrina secreta estava fundada.
A moral budista por sua vez já preconizava aos seus adeptos milenares : é necessário praticar o Bem porque o Bem é o fim supremo da natureza. A Ciência e o Amor são os dois fatores essenciais do Universo. Enquanto não os adquirir, o ser está condenado a prosseguir na série das experiências terrestres.
Em Dhmmapada encontramos estas orientações morais : Assim como a chuva passa através de uma casa mal coberta, assim a paixão atravessa a alma pouco refletida. Pela reflexão, moderação e domínio de si mesmo, o homem transforma-se numa rocha que tempestade alguma pode abalar. O homem colhe exatamente aquilo que semeou.
No Egito onde às portas do deserto erguem-se os templos e as pirâmides, o culto de Ísis e Osíris também apresentava duas faces. Debaixo dos grandes espetáculos e cerimônias públicas ocultava-se o verdadeiro ensino dos pequenos e grandes mistérios. A antiga doutrina, do verbo luz, simultaneamente inteligência, força e matéria; espírito, alma e corpo, analogia perfeita com a filosofia da Índia, foram o segredo da vitalidade do Egito.
Sob formas austeras os princípios desta doutrina eram expressos pelos livros sagrados de Hermes, que durante sua iniciação teve uma visão na qual conversou com o Grande Ser, Osíris e sua visão eram transmitidas vocalmente de pontífice a pontífice e gravada em sinais hieróglifos nas abóbadas das criptas subterrâneas. Elas reconheciam Deus como Pai, pregava o fogo das profundezas e a luz no Céu, ou seja um plano superior, onde o Destino do espírito humano tem duas fases: Cativeiro na matéria e ascensão na luz. Almas inferiores e más ficam presas a vários renascimentos na terra, porém as almas virtuosas sobem voando pare esferas superiores, denominadas em sete juntam: sabedoria, amor, justiça, beleza, esplendor, ciência, imortalidade. E“esta visão encerra o segredo de todas as coisas”.
Pitágoras, que havia estudado por 30 anos no Egito, levou para a Grécia, através da sua Academia de Crotona, as doutrinas secretas do oriente e soube fazer delas uma vas síntese, tendo como sucessores de sua obra Sócrates e mais tarde Platão, sendo que Platão foi também iniciado nos grandes mistérios egípcios e Sócrates condenado a beber cicuta pelo fato de insurgir contra os vícios que corrompiam a mocidade de seu tempo, legando, no entanto, até o momento de seu sacrifício, seus ensinamentos.
No Egito, na Grécia ou na Índia, os Grandes mistérios consistiam de uma mesma coisa : o conhecimento do segredo da morte, a revelação das vidas sucessivas e a comunicação com o mundo ocultam.
Os Hebreus eram uma ilha de monoteísmo cercada de povos politeístas por todos os lados. Como máximo legislador se destaca Moisés, cuja maior contribuição à humanidade não foi o seu Pentateuco, os seus cinco livros (Gênesis, Deuteronômio, Êxodo, Levítico e Números) com que se abre a Bíblia Sagrada dos Cristãos ... mas sim o decálogo recebido no Monte Sinai encerrando Mandamentos de valorização e enobrecimento da Alma.
Assim em uma pequena manjedoura em Belém de Judá, no silêncio da noite, nasce JESUS, sendo que até o encontro com João Batista, os evangelhos guardaram um silêncio absoluto sobre seus passos, e somente após este encontro de algum modo tomou posse de seu mistério, passando vários anos com os essênios. Submeteu-se a sua disciplina, de ordem severa, onde para ingressar era necessário um noviciado de um ano. Quem dava provas suficientes de temperança era admitido, sem contudo entrar em contato com os mestres. Eram precisos mais dois anos de provas recebido na confraria. Jurava-se “por terríveis juramentos” observar os deveres da ordem e nada revelar de seus segredos. Sendo assim houve uma relação íntima entre a doutrina de Jesus e a dos Essênios, que evidentemente eram considerados irmãos ligados a eles pelo juramento de seus mistérios. Sendo assim Ele próprio dizia : “Não vim para abolir as leis dos profetas, mas sim para cumpri-las”.
Consequentemente acumular riquezas materiais ou mesmo viver escravo das mesmas, é tão temporário quanto este corpo que possuímos, porque nada poderemos carregar junto na passagem da continuidade desta vida, o conhecimento material alarga a visão do homem para que melhor se situe no mundo e acima de tudo se torne mais amigo das coisas belas e mais irmãos dos seus semelhantes ... Quanto ao dinheiro, poderíamos compara-lo à água. Se parada é a estagnação ... Se corrente, é a benção dos vales ... Se desgovernada, é a inundação semeando a destruição ... Se sob controle, é a represa convertendo-se a energia ... Sob o Sol, evapora-se de onde está em excesso e faz-se chuva sobre a gleba ressequida ... Sob o calor do nosso Amor, as moedas podem ir em socorro da dor alheia na forma de chuva de benefícios, angustiadamente esperados ...
CONCLUSÃO
A Maçonaria desperta-nos para a nossa verdadeira natureza de alma imortal a despeito dos disfarces da vida material ... O corpo não passa de um envoltório que é passageiro, que é perecível, que é falaz ... As circunstâncias da vida como a cultura, o dinheiro, a saúde, a fama, o poder, a casa bonita, o último carro, as iguarias deliciosas, o leito macio, tudo isso é um breve estágio porque estamos passando ... Uma ligeira oportunidade de evolução que o G .: A .: D .: U.:, por infinita Misericórdia, nos está concedendo para o nosso progresso em todos os sentidos.
Nas experiências deste mundo não raro encontramos, como pano de fundo, os gemidos da dor, as angústias do desespero moral, onde se desfazem as ilusões e descobrimos a nossa verdadeira natureza. Atinamos enfim com a nossa individualidade espiritual.
Irmãos queridos ! O G .: A .: D .: U.: não nos destinou para a brevidade desta existência terrena. Não embora o estágio na Terra seja sumamente valioso para o nosso progresso evolutivo, a verdade é que somos cidadãos do infinito.
E um porvir cheio de nobres realizações inimagináveis nos aguarda no Grande Além. Emoções que a linguagem humana não consegue definir, inundam de ventura perene o ânimo da Alma em sua trajetória de ascensão sublime para o G .: A .: D .: U.:.
O homem que se fecha em si mesmo ou só se abre às coisas corriqueiras do seu estreito mundo material é incapaz de conhecer o que seja a vida da alma.
E nós maçons, que tivemos a grata oportunidade de iniciarmos nos mistérios da Arte Real, somos conclamados a esta reflexão cada vez que adentramos ao templo maçônico, que nos convida a uma viagem a esta milenar história, adornando com seus símbolos e rituais e tendo como ápice desta conclamação o sublime momento em que o Ven .: M .: no fechamento da loja evoca :
“O G .: A .: D .: U.: fonte fecunda de Luz, Felicidade e Virtude ...”
Ir.'. Antônio Carlos Rondon Júnior
Loja Maçônica Tupy
Or.'. de Araçatuba - SP.
Bibliografia
Bhagavad-gita – A mensagem do mestre•
Os grandes iniciados – Édouard Schvré
Depois da morte – Leon Denis
O porque da vida – Leon Denis
Constituição do G.: O .: B .:
Grau do Aprendiz e seus mistérios – Jorge Adoum
A delicada questão da vida – Celso Martins
Erac – Loja Fraternidade de Limeira
sábado, 23 de novembro de 2013
A IGNORÂNCIA, O FANATISMO E A SOLIDARIEDADE...
Longe de se tratar apenas do desconhecimento generalizado, a Ignorância é o pior mal que aflige a sociedade humana. Não se trata apenas da falta de cultura geral, mas do mau uso que se faz do conhecimento existente. O ignorante oprime e subjuga o próximo em sua busca pelo poder, ao ganho fácil e desonesto ou baseado na força física e no ardil, provoca baderna, guerra, desmando e desmoraliza toda a sociedade; é um bruto.
Já o homem sábio e espiritualizado prima pela busca do respeito a si próprio e pratica o amor fraterno. Mesmo que a maioria não o mereça, é tolerante até o limite de sua capacidade individual. A sabedoria não é a erudição; é um conjunto harmonioso de conhecimentos e disposição mental. Além de ser estudioso, aperfeiçoar-se permanentemente, o homem de perspicácia age e fala em conformidade com a razão e a moral, com prudência e experiência de vida, é sensato, equilibrado, sensível, moderado, sereno, amigo do progresso, sujeito a mudanças, evita o confronto pela força física, luta pela verdade, justiça e união dos povos, visa a intensificação da luz da visão interior, fomenta a promoção do crescimento do bem e da perfeição e promove o autoconhecimento. Ao entrar na posse das noções equilibradas dos direitos e deveres de cidadão e ser humano, e, ao educar-se permanente, liberta-se, pois só uma pessoa livre pode promover ações que ajudam a sociedade a quebrar os grilhões da escravidão do sistema dos embrutecidos.
Infelizmente, tanto o fanatismo político como o religioso promove as maiores arbitrariedades. Supostamente por ordem da divindade o fanatismo religioso é uma espécie de anomalia mental que contamina as pessoas e perverte a razão. A história tem muitos relatos de quão horrorosa pode ser uma sociedade dominada pela superstição, falsidade e loucura fundamentalista. Também os fanáticos políticos, movidos pela cobiça e o poder, muitos males causam a sociedade. Miríades de homens e mulheres de valor foram caladas ao longo da história humana pelos extremismos político e religioso.
A Maçonaria, orientada pelo Grande Arquiteto do Universo, sem ufano, tem a pretensão de promover a educação necessária para melhorar o ser humano, combater o fanatismo e promover a solidariedade como recurso para eliminar os males da vida de seus obreiros e da sociedade em geral. A associação de maçons não consta de uma proteção incondicional recíproca, mas é fundamentada em valores e condições razoáveis. A melhor proteção de seus membros vem da educação que ela promove, e deste desenvolvimento pessoal e do relacionamento interpessoal florescem amizades, vínculos de perfeita união, tão fortes que fazem da Ordem um local onde o amor é usado para moldar espíritos e intelectos para se tornarem pessoas de valor na sociedade em que vivem.
E assim, educando a pessoa, esta pelo exemplo, conquista outras pessoas no meio em que vive, tornando a vida da sociedade global mais fácil de ser vivida.
Que o Grande Arquiteto do Universo Abençoe a todos nós!
Ir.'. Charles Evaldo Boller
ARLS Apóstolo da Caridade n° 21
Or.'. Curitiba - Grande Loja do Paraná
sexta-feira, 22 de novembro de 2013
HOMEM LIVRE...
Seríamos todos realmente “livres”?
Sobre essa expressão, geralmente os IIr.•. dizem que é um resquício da antiguidade, um apêndice não removido, que refere-se à escravidão de outrora. Outras fontes maçônicas apontam à independência decorrente da não submissão a trabalho servil. Mas aqui gostaria de levantar outro enfoque de “liberdade”. Seríamos todos realmente “livres”?
Ouso afirmar que 95% da população não o é completamente.
Senão vejamos o que é ser livre?
Simplificadamente é poder “optar” entre isso ou aquilo, livremente e sem coação (ou indução?). Se já não há constrangimento para que ajamos dessa ou daquela forma (senão em virtude de lei), qual seria outra forma de interferência capaz de influenciar nossos juízos e ações?
Poder-se-ia perquirir da manipulação da mídia, das mensagens subliminares, da publicidade que induz às massas ao que gostar e consumir, mas mesmo que grande parcela da população realmente seja vulnerável a esse tipo de influência, quero crer que os livres-pensadores estejam mais imunes a essa virulência moderna. Descartamos aqui, então, as influências externas (não sem antes atentarmos a elas), e aqui já começa o leitor atento a ter indícios do enfoque pretendido.
Toda pessoa tem “tendências”, ou seja, em situações semelhantes, tende a agir ou reagir de tal ou qual forma. Os espiritualistas explicariam essas “tendências” como resquícios de personalidades de outras vidas. Os psicanalistas talvez as explicassem em termos de influências subconscientes. Outros poderiam ainda arguir a teoria do “atavismo” (comportamentos ancestrais latentes). Pouco importa a justificativa, fato é que essas tendências existem, e é delas que queremos aqui tratar.
Se há algum móvel interno, oculto, dissimulado, para as ações de um indivíduo, seria ele plenamente “livre”? Tenho a íntima convicção de que, dependendo do grau de autoconsciência do sujeito, ele pode ser mesmo joguete dessas “forças” internas, bastando para tanto “agir por impulso”.
“Conhece-te a ti mesmo”, já dizia o antigo adágio, mas quantos podem, inequivocamente, afirmar que realmente se conhecem?
O conhecer-se a si mesmo implica numa “sinceridade interna” que poucos suportam, porque dolorida. Reconhecer a si mesmo os próprios erros e vícios, as inclinações pouco louváveis, obrigatoriamente perpassa um necessário exercício de “confissão interna”, franqueza ou auto-honestidade absoluta. O mais comum é o indivíduo procurar justificar a si mesmo as suas faltas em termos de “projeção”, ou seja, “- se assim agi é porque fui levado a isso pelos erros dos outros”.
Mas somos humanos. Reconheçamos a nossa humanidade também nas fraquezas inerentes ao ser humano. Não somos “seres ascencionados” para estarmos imunes a sentimentos vis, por mais sutis e aculturados que esses se possam mostrar. Alguns afirmam que por baixo da pele do homem dormita um lobo, pronto a ser despertado. Não cheguemos a tanto, pois que acreditamos na bondade do ser, contudo inicialmente admitamos que algo sempre há de incorrigido dentro de nós. Esse é o primeiro passo.
O segundo passo seria nunca agir por impulso, pois que o instinto assim atua, quando não se deixa atuar a racionalidade. Respirar ao menos uma vez antes de responder a algo que nos contraria continua sendo um excelente exercício.
Outro exercício seria o “destrinchar” dos sentimentos. Se algo lhe magoou ou entristeceu, procure no seu interior, com honestidade, as raízes desse sentimento. Averigue se ele não provém na realidade de motivo menos nobre, como orgulho, inveja, vaidade... SEJA SINCERO! É um diálogo interno, de você consigo mesmo, ninguém precisa ficar sabendo. E depois aja, ou abandone o sentimento, ou o substitua por outro, ou seja, EXERÇA VOCÊ MESMO VIGILÂNCIA SOBRE OS SEUS PENSAMENTOS E EMOÇÕES, PROCURE CONHECER E SUPERAR AS SUAS TENDÊNCIAS INCONSCIENTES. Seja livre!
E não pense que o autor desta já obteve êxito nesse ínterim. Esse é um exercício diário, quando as arestas vão sendo paulatinamente removidas. Pode ser que essa pedra demore a vida inteira para ser lapidada (e geralmente assim é), mas isso não impede que apresentemos ao “mestre de obras” no dia de hoje uma pedra melhor do que a que apresentamos no dia de ontem.
Ir.'. Fábio Henrique Hardt - MI
REAA - GLMERGS.
ARLS Baden-Powell 185
quinta-feira, 21 de novembro de 2013
PLATÃO...
Platão nasceu em Atenas, no ano de 427 a.C. e morreu em sua cidade natal no ano de 347 a.C.. Pertencente a uma família nobre de sua cidade, conheceu aos vinte anos seu mestre Sócrates, com quem conviveu até os seus vinte e nove anos, quando Sócrates foi condenado à morte por envenenamento. Durante sua vida, Platão viajou por muitas civilizações do mediterrâneo, passando pela Grécia, Egito, Cirene, sul da Itália e Siracusa.
Platão era discípulo de Sócrates que cultivava reservas profundas em relação à escrita porque, segundo ele, a escrita não seria um meio de adquirir conhecimento. Talvez por isso, Platão quando começou a escrever, preferiu escrever em diálogo, por entender que essa seria uma metodologia de investigação, de tal maneira que tudo possa ser transportado ao papel como acontece na realidade, para que a linguagem escrita mantenha a vivacidade e as marcas da oralidade, como uma imagem perfeita.
O primeiro trabalho filosófico escrito por Platão foi um discurso em defesa de seu mestre contando tudo o que Sócrates falou ao júri que o condenou e, a partir daí, não deixou mais de escrever. Sempre se utilizando de diálogos escritos envolvendo Sócrates e outras pessoas do seu cotidiano intelectual.
Consideram-se autênticos 28 diálogos, do total de 35, atribuídos a Platão. Em alguns percebe-se a preocupação dele em definir idéias como a mentira, a coragem, o dever, a natureza humana, a amizade, a sabedoria, a piedade, a virtude, a justiça, a ciência e a retórica.
Platão fundou, por volta de 387 a.C., sua própria escola. Localizada próxima a Atenas, em um bosque que tinha o nome do herói grego Academus e, devido a esse nome, sua escola ficou conhecida por Academia de Platão. Nela ensinava-se filosofia, matemática e ginástica utilizando-se, sempre que possível, de diálogos e discussões. Dizem, que na fachada da escola de Platão estava escrito: "Que aqui não entre quem não for geômetra." Por objetivo, Platão queria encontrar uma realidade que fosse eterna e imutável.
Platão, assim como Heráclito considerava que o mundo material ou físico é o que está sujeito a mudanças contínuas e a oposições internas, seria o mundo em que vivemos, formado de coisas imperfeitas, mal definidas, como sombras de uma realidade verdadeira. Um mundo onde as coisas fluem e não são eternas e imutáveis porque são corpos físicos que se desgastam e morrem um dia, cópias infiéis de suas idéias perfeitas, eternas e imutáveis que existiriam no "Mundo das Idéias".
Mundo inteligível, ou "Mundo das Idéias", segundo Platão, seria o mundo verdadeiro ou das essências imutáveis, sem contradições nem oposições, sem transformações. Coerente com suas teorias, Platão confiava apenas na razão e nunca nos sentidos, porque o conhecimento e as informações que chegam através dos sentidos são imprecisos diferentemente dos conhecimentos que tomamos com base na razão que não varia de pessoa para pessoa, por ser ela eterna e universal. Partindo daí, podemos compreender muito bem porque Platão gostava tanto da matemática, na qual, sempre se utiliza a razão para resolvê-la e as respostas são sempre precisas e comuns para todas as pessoas e eternamente as mesmas.
No pensamento de Platão o homem é um ser dual, ou seja, formado por duas partes diferentes: o corpo físico - impreciso e dotado de sentidos, pertencente ao "Mundo Material" ou "Mundo dos Sentidos", e a alma, que é imortal, vinda do "Mundo das Idéias", que é a morada da razão. E, por não ser material, a alma consegue se comunicar com o "Mundo das Idéias". Vinda do "Mundo das Idéias", a alma traria com ela as idéias perfeitas desse mundo que em contato com o "Mundo dos sentidos" seriam esquecidas. Segundo Platão, para a alma resgatar estas lembranças seria preciso que as pessoas, cada vez mais, entrassem em contato com as coisas da natureza.
Com relação as mulheres, Platão achava que: se elas recebessem a mesma formação que os homens e fossem liberadas dos trabalhos domésticos desenvolveriam igualmente suas capacidades mentais e conseqüentemente poderiam governar um Estado da mesma forma que eles.
Platão também se interessava por política e, segundo ele, o ideal seria a criação de um Estado baseado na estrutura de um corpo atuando sobre ele a alma e a virtude e uma República estruturada como o corpo humano. Neste tipo de organização: a cabeça seriam os governantes, que deveriam ser filósofos; o peito seriam os sentinelas, os guardas, o exército; o baixo ventre, os trabalhadores. Da seguinte forma:
Corpo - Alma, Virtude, Estado;
Cabeça - Razão, Sabedoria, Governantes;
Peito - Vontade, Coragem, Sentinelas;
Baixo-ventre - Desejo, Temperança, Trabalhadores.
A primeira parte da filosofia de Platão é conhecida por *Dialética que busca através dos diálogos a procura incessante com vistas a descobrir conceitos gerais, universais e reais, arquétipos eternos. Um diálogo, em que se confrontam opiniões diferentes sobre um mesmo assunto para que, através dos argumentos apresentados, possa-se chegar a um pensamento comum, passando-se das imagens contraditórias a conceitos idênticos.
A Dialética Platônica é um procedimento intelectual e lingüístico em que: se partindo de alguma coisa sobre a qual dividimos duas partes contrárias ou opostas e que através dos conhecimentos de sua contradição se possa determinar qual dos contrários é verdadeiro. E assim sucessivamente vai se dividindo cada par de contrários que devem ser novamente divididos até que se chegue a um termo indivisível que seria, finalmente, a essência da coisa investigada e sobre a qual não há nenhuma contradição.
A Filosofia de Platão é baseada na ética, dialética, metafísica, teologia, antropologia, estética, cosmologia e pedagogia. É sobretudo uma crítica social. Foi traduzido para o cristianismo por Santo Agostinho e alguns o consideravam quase um deus como Plotino e a escola neoplatônica.
*Dialética - Originalmente, o termo (que tem origem grega) significava discorrer com, isto é, trocar impressões, conversar, debater... dialogar. Evolui, entretanto, para um sentido mais preciso, designando "uma discussão de algum modo institucionalizada, organizando-se -- habitualmente em presença de um público que acompanha o debate -- como uma espécie de concurso entre dois interlocutores que defendem duas teses contraditórias. A dialética eleva-se, então, ao nível de uma arte, a arte de triunfar sobre o adversário, de refutar as suas afirmações ou de o convencer" (BLANCHÉ, Robert - História da Lógica de Aristóteles a Bertrand Russel. Lisboa: Edições 70, 1985).
Ir Rony Motta
ARLS Renascença Santista n° 339
Santos - SP
segunda-feira, 18 de novembro de 2013
BLOG DO REGISCAMBOA: "A MAÇONARIA E A PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA"
BLOG DO REGISCAMBOA: "A MAÇONARIA E A PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA": Devemos julgar um homem mais pelas suas perguntas que pelas respostas (VOLTAIRE). Onde florescem os ensinamentos maçônicos não vicejam a...
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